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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ciência estuda caju no combate ao câncer
Pesquisa feita na UnB revela propriedades terapêuticas de óleo da castanha contra a doença
Fabiana Vasconcelos

Da Secretaria de Comunicação da UnB
Apoena Pinheiro/UnB Agência
A descoberta de medicamentos mais eficientes e baratos para tratamento do câncer pode vir de uma fruta típica da região Nordeste, o caju. Foi o que demonstrou a dissertação de mestrado do químico Wellington Alves Gonzaga, defendida na Faculdade de Ciências da Saúde (FS) da Universidade de Brasília (UnB), sob orientação da professora Maria Lucilia dos Santos.
Gonzaga sintetizou moléculas a partir do óleo encontrado na castanha, que geralmente é descartado pelas indústrias após a torrefação ou vendido para empresas no exterior a preços irrisórios. Das quatro substâncias que compõem o líquido, ele se deteve em duas, o ácido anacárdico e o cardanol.
Esses componentes e seus derivados foram avaliados quanto ao potencial de ação na morte de linhagens de células tumorais. Cinco substâncias se mostraram mais efetivas em relação ao câncer de boca e, outras cinco, quanto ao câncer de mama. Desses dez compostos, sete apresentaram atividade em 24 horas e, as demais, em 48 horas.
“O espectro de fármacos que podem ser feitos é muito grande. Como o caju é abundante e barato, os preços poderiam ser mais acessíveis”, afirma o pesquisador, que desenvolveu parte das pesquisas no Instituto de Química e parte no Laboratório de Farmacologia Molecular, da Faculdade de Ciências da Saúde.
Essa redução de valor, ainda sem condições de ser dimensionada, beneficiaria principalmente a população de baixa renda, que depende da rede pública de saúde para adquirir remédios de alto custo. Um medicamento contra tumor de mama aprovado recentemente para comercialização no Brasil, por exemplo, custa cerca de R$ 4.500, valor correspondente a um caixa para 14 dias de tratamento.
REAÇÕES - A idéia de chegar a um produto final a partir do caju precisa percorrer um longo trajeto e depende de novas pesquisas em torno dos dados já alcançados. Mesmo assim, o caminho já foi aberto e deve prosseguir. “Vamos repetir os testes devido à relevância das informações”, afirma o químico. Essa etapa deve ter o apoio da professora Andréa Barretto Motoyama, do Curso de Ciências Farmacêuticas, que participou dessa fase do estudo.
Vencida essa fase, haverá análises de toxidade e da ação em relação às células sadias do corpo. Quanto menor a interferência nelas, menores as chances de que um possível medicamento cause reações adversas. “Precisamos de mais estudos para conhecer o mecanismo de ação das moléculas”, diz.
Gonzaga defende a elevação de investimentos no setor para que as universidades possam cumprir com mais propriedade seu papel de levar benefícios para a sociedade. “Se o Brasil incentivasse mais a pesquisa, teríamos muita produção de ponta”, afirma. O químico pretende, agora, continuar os estudos no doutorado com a análise do óleo da castanha do caju para a produção de protetores solares.
O caju, além de ser fonte de vitamina C na alimentação, tem se mostrado uma excelente fonte de pesquisa para a área farmacêutica. A literatura registra ação antiinflamatória, antioxidante, aplicações em terapias contra excesso de peso, úlcera e até impotência sexual a partir de moléculas naturais ou sintéticas. Um outro estudo do grupo feito na UnB também demonstrou propriedades fotoprotetoras, o que levou à solicitação de patente em conjunto com os parceiros do estudo, a Universidade Católica de Brasília (UCB) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa recebeu, em 2004, o prêmio especial do Congresso Brasileiro de Cosmetologia.
Embora os cajueiros sejam uma constante na paisagem cearense, o maior produtor de castanha de caju é a Índia. A árvore é encontrada, ainda, em países de clima tropical, como Moçambique, Quênia, Vietnã, Guiné e Tanzânia.
CURIOSIDADE
As substâncias bioativas derivadas do óleo da casca da castanha do caju são, em geral, produzidas por meio de processos envolvendo modificação química dos seus componentes naturais.
CONTATO

Wellington Alves Gonzaga pelo e-mail quimica2001br@gmail.com

Caju para tratar o câncer

Ciências
Caju para tratar o câncer

Químico da UnB descobre que óleo da casca da castanha da fruta tem o potencial de eliminar até 80% das células que provocam a doença

Lívia Nascimento
Da Equipe do Correio
Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press
Wellington Gonzaga passou dois anos estudando as propriedades do caju: resultado promissor
Uma fruta típica do nordeste brasileiro, apreciada pelo uso na produção de doces, sucos e em um dos petiscos mais apreciados, a castanha de caju, tem potencial de ser uma alternativa inovadora e barata no tratamento do câncer de boca e de mama. Essa foi uma das constatações do químico Wellington Alves Gonzaga em sua tese de mestrado apresentada na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) no primeiro semestre deste ano. O trabalho estudou as substânci as que compõem o óleo extraído do interior da casca da castanha, em especial do ácido anacárdico e o cardanol.

Durante dois anos, o pesquisador, que também trabalha como professor da Secretaria de Educação, realizou seus estudos nos laboratórios de Ciências da Saúde e Química da UnB. Entre tubos de ensaio, bicos de Bunsen e elementos químicos, Wellington descobriu que, em alguns casos, as substâncias extraídas do óleo e processadas em laboratório têm o poder de destruir até 70% das cé lulas cancerígenas de mama e até 80% das células que provocam o câncer de boca. A extração do óleo é uma tarefa delicada: a castanha precisa ser cortada e superaquecida com etanol para a retirada do líquido, que ainda é pouco valorizado no Brasil. Atualmente, quando ele não é descartado pelas indústrias após a torrefação, é vendido para empresas no exterior a preços irrisórios. Essas empresas fazem o processamento do óleo, que é revendido para o país a preços elevados.

O pesquisador re ssalta que é preciso ter cautela quanto ao uso da substância para o tratamento da doença. Uma descoberta como essa, estima, leva até 10 anos para se reverter em medicamentos, quando isso ocorre. “Depende de outros estudos, mas a pesquisa deu um norte para quem quiser continuar nessa linha. Só depois de passar por uma série de experiências e testes será possível definir se isso vai se transformar mesmo em um medicamento”, detalhou. Um caminho possível em novos estudos incluiria testes em animais , como ratos e outros mamíferos. Só depois teriam início as experiências em humanos.

A realização da pesquisa foi uma tarefa árdua para o químico de 31 anos que trabalha como professor da disciplina em uma escola da cidade. “Não temos incentivos para trabalhar com a pesquisa. É difícil se dedicar a estudos como esse, pois o trabalho é complexo e exige dedicação. Não temos incentivo para a dedicação exclusiva. Cheguei a dormir duas horas por noite”, lembrou.

A orientadora do trabalho, Maria Lucília dos Santos, destaca o ineditismo da dissertação. “É a primeira pesquisa no Brasil com o objetivo de preparar um medicamento de combate ao câncer tendo como objeto o óleo de castanha de caju”, afirmou. A relevância é ampliada pelas estatísticas do Instituto Nacional de Câncer, que estima em 660 o índice de casos de câncer de mama para cada grupo de 100 mil mulheres.

A professora do Instituto de Química da UnB também estuda o líquido proveniente da castanha. Uma das linhas desenvolvidas em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é a da transformação dos constituintes do óleo em substâncias com maior valor agregado, como, por exemplo, o protetor solar. Algumas das novas substâncias sintetizadas pela equipe apresentaram elevado fator de proteção contra os raios solares.

CUIDADOS PALIATIVOS EM DISCUSSÃO
Médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais se reúnem até amanhã em Brasília para discutir ações de cuidados paliativos para pessoas que sofrem com doenças crônicas, progressivas e sem chance de cura. Eles participam do III Congresso Internacional de Cuidados Paliativos no Auditório Ulysses Guimarães da Universidade Paulista, na 913 Sul. O objetivo dos 600 participantes é reivindicar políticas públicas para serem implantadas pelo governo. “Precisamos garantir a qualidade de vida do paciente até o fim com apoio físico, mental e espiritual”, explicou a médica Anelise Carvalho, uma das organizadoras.